Diatribes das Edições Antipáticas nº 1: A Violenta Agressão ao Ceguinho.
No contexto de conformismo e inércia da “cena antagonista” que
existe em Portugal é estranho que o projecto inicial de um colectivo vise
demolir o que ainda existe desse pequeno movimento. Perante a semiinexistência
de projectos de veiculação e disponibilização de informação
e reflexão que permitam um extravasar de fronteiras e uma sofi sticação
das práticas para quê um par de páginas dedicados a bater no cadáver de
uma “cena” que nunca chegou realmente a existir?
Comecemos pelo princípio e tiremos as aspas aos nomes que
queremos usar. O que queremos dizer com cena antagonista? Neste
contexto referimo-nos ao conjunto de práticas, de teorias e relações
sociais que foram criadas por algumas pessoas a partir da ocupação
da casa encantada em 1996 e que depois se foram espalhando para
outros locais semelhantes e para outros pontos do país, abandonando
e ultrapassando o lugar físico e referencial da sua origem; não porque
antes ou paralelamente não tenha existido mais nada mas porque foi
neste processo que se cristalizou o que queremos referir. Consciente
de que a partir do momento que tivesse um nome pelo qual fosse
identificada seria facilmente categorizável e relativizada, esta realidade
sempre recusou os que lhe eram dados (quer pelo exterior: os okupas, os
anarcas; quer no interior: a cena, o pessoal...), ainda que quem a tenha
observado de fora tenha tido poucas dificuldades em o fazer: os “okupas”
eram precisamente os okupas enquanto grupo fechado e elitista,
uniforme tanto em aspectos exteriores facilmente identifi cáveis como
em práticas e em opiniões sobre as quais sempre houve pouco debate e
ainda menor desacordo. Como não queremos mais do que precisamente
categorizar, esquartejar e enterrar “o pessoal” damos-lhe o nome que
mais odiou, precisamente por ser o mais justo ao evocar a sua inutilidade
e o seu carácter de tribo urbana: a cena. Porquê a cena “antagonista”?
Porque enquanto práticas formais e existenciais da cena foram sempre
desenvolvidas e largamente publicitadas perspectivas criticas que se
queriam radicais e posturas que ultrapassavam o escapismo para se
tornarem (ainda que a longo prazo) ofensivas; porque esta assume
como o seu propósito final a transformação total do existente através de
métodos que não permitissem concessões e que não encenem qualquer
negociação com o que entende enquanto inimigo.
A cena foi ganhando os contornos presentes após a ocupação do
primeiro centro social em Lisboa e solidificou-os à volta de experiências
semelhantes em inúmeros outros pontos geográficos: as dinâmicas
pessoais dos seus ocupantes viram-se potenciadas pela interacção com
outras pessoas e pelas possibilidades de uso que o espaço facultava e este
explodiu em representações tanto internas como externas. Surgiram na
cidade de Lisboa os Okupas: as condições do espaço, as especifi cidades
dos envolvidos e as tendências globais da específica tendência política
contribuíram para a formação de várias praxis e personalidades
específicas ao sitio, que se traduziram em modos - comportamentais e
estéticos - de estar e de ocupação do espaço aparentemente novos.
O que o projecto teve de fantástico e de libertador foi sendo
progressivamente apagado e substituído pela maior parte das
características autoritárias que caracterizam todos os gr upelhos de
jovens motivados: arrogância da parte dos que dissimuladamente
g uardavam para si a liderança informal do movimento; rituais, prérequisitos
e graus de aceitação e de acesso à cena e aos seus centros
de decisão e a adopção de um rígido conjunto de regras relativas
a compor tamentos quotidianos. O Surgimento de uma nova tribo
urbana (talvez de luxo, mas sempre uma tribo urbana) criou reacções
e repetições: o que inicialmente tinha surgido enquanto resposta
conjunta a condições específi cas ficou escrito, evaporou-se em
impessoalidade e sendo então abstracto tornou-se Lei.
A cena investiu-se de uma série de traços de carácter que só fazem
sentido para ela e dentro dela, passou a acreditar num número de ilusões
que clandestinamente sabe (ou deveria saber) serem ilusões mas que em
conjunto se recusa a tratá-las enquanto tal, porque sabe que no momento
em que elas caírem todo o projecto em que investe tanta energia implodirá
por falta de propósito. No pouquíssimo que faz e que organiza a cena é
ineficaz, pouco pertinente, incompreensível e em última análise inútil,
porque o que tem a dizer só faz sentido para ela própria: no embrulho
que dá a qualquer postura que toma, por mais necessária, urgente e justa
que seja, faz com que esta perca todo o sentido ao adquirir os contornos
teológicos, herméticos e totalitários que esta lhe investe. O seu isolamento
do mundo exterior solidificou-se e tornou-se ressentido: para a cena
quem não se rege pelo seu código estrito é menino, comuna, reformista,
mamado ou bófia; não existindo muito mais para além disto.
Falha em perceber que é no seu seio que reina uma uniformidade
quase total que não tolera nem divergências nem dissidências; sendo esta
uniformidade bastante complexa já que luta entre si segundo conceitos
“puros” e religiosos numa eterna mini-competição e auto-vigilância
entre os seus membros. Todos se esforçam por manter as aparências e
por merecer credibilidade publicitando os seus feitos - a sua recusa de
confortos burgueses, a sua dureza cinematográfica – o que conduz a
miserabilismos espampanantes, a uma generalizada desconfi ança, a
um omnipresente desconforto e a uma degradação ruinosa das relações
sociais entre os membros da cena: obrigados ao mesmo tempo a uma
fraternidade casa-piana e a um secretismo ambig uamente panóptico e
paranóico; constrangidos a lutar pelo seu lugar na hierarquia clandestina
inconscientemente desdenhando quem considera seu inferior enquanto
presta as homenagens a quem considera seu superior, o pessoal da
cena é obrigatoriamente infeliz, depositando depois a fonte das suas
desgraças não no seu masoquismo, nem na sua óbvia esquizofrenia e na
pobreza das suas relações, mas em entidades abstractas e enormemente
simplificadas como a “cidade”, a “babilónia”, a “paranóia” . Perante um
mundo complexo, o qual julga pelo pouco que conhece ou que lhe é
mostrado (pouca gente acredita tanto nos filmes, nos livros e nos jornais)
a cena acaba por ser só mais uma prática social tornada subterrânea pelo
desinteresse dos seus congéneres, uma flatulência, perfilando-se com as
corridas ilegais de automóveis, com os campeonatos de jogos de cartas e
com as festas de troca de casais.
Mas o isolamento e a ineficácia da cena não decorrem apenas
do seu autismo, mas essencialmente do seu carácter de fenómeno
importado: pouca ou nenhuma ligação têm com experiências confl ituais
anteriores ou com dinâmicas de confronto que surjam de situações
imediatas de exploração. Enquanto lugar desde sempre receptivo às
influências estéticas ou politicas das capitais do movimento, a cena
nunca teve a preocupação de aprender com o que se fazia fora dos seus
confi ns geográficos porque sempre esteve demasiada ocupada a imitar a
pouca e parcelar substância que conseguia apreender nas suas visitas: os
detalhes mais vistosos e habitualmente mais superfi ciais.
Ainda que agora assuma uma pose de liberdade sexual (tão
importada, falsa e precária como tudo o resto) a cena é normalmente o
palco por excelência da miséria sensual. Prova cabal de que a cena só
conseguiu importar conceitos estéticos é o facto de durante muitos anos
nunca ter conseguido sair de uma confusão moralista pós-adolescente
que pensa rejeitar o sexismo quando na verdade criminaliza o sexo e
qualquer manifestação de desejo. A situação ser ve de metáfora para tudo
o resto que discutimos aqui: ao tentar lidar com problemas evidentes – o
sexismo, a moral sexual vigente e o seu desejo de mais liberdade sexual
– foi criado um modelo espartano de comportamento, às vezes casto,
às vezes esteticamente libertino, que conseguiu não só reprimir mais
um pouco todos os envolvidos mas também deixar tudo igual ao que
sempre foi: os desejos continuaram reprimidos e a só ser confessados
em tom de piada quando ambientes só de homens ou só de mulheres,
os casais continuaram firmemente heterossexuais e monogâmicos,
os comportamentais de engate ou de actividade sex ual continuaram
actividades clandestinas, culpabilizadas.
Do mesmo modo, não é por evitar estruturas fixas nem por
se auto-promover enquanto organização sem hierarquias que a cena
deixa de as ter; ironicamente, por estas existirem clandestinamente,
tornam-se muito mais fortes, já que se torna mais difícil contestar os
líderes. O Líder na cena não será nunca o mais autoritário nem o mais
maquiavélico, mas sim o que concentra em si capacidade retórica e
proximidade do estereótipo almejado, não conta só a capacidade de
organização e mobilização mas ainda também as habilidades sociais que
lhe permitam a aquisição de informação e o tornem num centro de fl uxos
desta. Na verdade as hierarquias, apesar de clandestinas, são conhecidas
por todos assim como os papéis que cada um pode desempenhar e pode
pedir aos outros para desempenhar. À sua maneira, todos admiram os
decanos, que nunca fazendo nada são consultados sobre todos os assuntos
sendo as suas sábias palavras posteriormente repetidas e comentadas,
e à sua maneira, todos desprezam o puto novo na cena, portador de um
entusiasmo que o ressentimento realista de cada membro da cena não
pode deixar de considerar infantil e de certa maneira irritante porque
reflecte o que foi em tempos a sua própria ingenuidade e porque espelha
de maneira óbvia o seu cinismo e a secreta falta de fé no próprio discurso
da cena.
A sua critica e tentativa de prática radical assenta essencialmente
em duas falácias num maior ou menor grau compartilhadas por todos: a
primeira assume que a crítica que faz ao capitalismo e ao estado e mais
a isto e aquilo é total; assume isto porque considera que ao criticar o
capitalismo não só nas suas óbvias falhas de distribuição de riqueza
e de poder mas também nas suas consequências a nível existencial e
quotidiano (e por incluir nestas críticas aquilo que o poder apresenta
como alternativas) está a compreender toda a realidade – não percebe
que para tudo compreender é preciso algum tipo de omnipotência
pura – e que no fundo a sua sempre limitada experiência de fi lho
eternamente adolescente de uma burguesia mais ou menos iluminada
mina a sua compreensão das realidades pela qual transita. Fosse a
única consequência deste processo a mera bazófia juvenil e não nos
importaríamos muito com ele, mas o problema que tudo isto sugere é o
facto de a cena, perante uma raiva e uma energia que ela própria cultiva,
nunca conseguir lidar com o peso da tarefa de destruir um mundo que
ela mal compreende. A cena promove um activismo esquizofrénico que
dispara para todo o lado ao mesmo tempo sem nunca acertar em nenhum
alvo, a cena não ataca, esperneia, e a cena não se defende, faz birra.
A seg unda falácia que impede que alguma vez se possa extrair
uma qualquer consequência construtiva de uma acção da cena é a sua
fobia pela recuperação: conhecendo as tácticas que o sistema usa para
neutralizar discursos a cena esconde, por vezes ostensivamente, o seu
próprio dos meios que identifica como nocivos, afi rmando preferir os
seus canais próprios de comunicação e de exposição, não percebendo,
espantosamente, de que estes não existem e de que nunca foi feito nenhum
esforço sério para os criar. A cena esquece-se de que não está a fazer nem
nada de novo – os poderes instalados já sobreviveram aos métodos tácticos
propostos por ela há algumas gerações atrás – nem nada de importante:
o que a cena faz e organiza presentemente simplesmente não é nem
profundo nem perigoso. A cena concebe-se num autismo ignorante como
o único ponto de conflito no sistema, escapa-lhe que na vida de todas
pessoas, do bófia ao okupa, há momentos de antagonismo e de submissão
ao poder - felizmente no mundo a que ela desdenhosamente chama de
“Carneirada” há mais subversão latente e efectiva do que ela poderia
alguma sonhar ter no seu seio - e não percebe que não é única a ler nas
entrelinhas dos discursos do poder. Mas mais grave é a verdadeira razão
pela qual a cena tem medo do que afirma ser a sua “recuperação”: a cena
tem um pavor imenso de mudar. Morre de medo de que alg uma exposição
que ela própria não controle possa transformar o seu mundinho para
pior ou para melhor. É por isso que afirma uma aversão congénita a
qualquer tipo de exposição mediática sendo no mínimo estranho que
não tenha também então uma resistência pelo menos tão grande a outros
elementos tão ou mais óbvios do exercício e da organização do controle e
da repressão: não se coíbe de usar dinheiro nas suas actividades, nem de
procurar dialogar com o poder local e chega mesmo ao ponto de chamar a
policia quando se sente ameaçada. E é aqui que a cena revela o insolúvel
paradoxo que lhe está no cerne: a Cena quer ao mesmo tempo ser um lugar
de acção politica – com uma acção exteriorizante e táctica – e um lugar de
refúgio; e é por isso que funciona na sua vertente mais sofi sticada como
uma maçonaria e na sua face menos charmosa como um colégio interno.
É neste clima de omnipresente medo do escuro que a cena cria as suas
narrativas para consumo interno, os seus medos e as suas aventuras
são poemas épicos arrancados de raciocínios pouco mais que lineares:
os seus vilões - policias e nazis - assumem proporções gigantescas e
maquiavélicas, sem que haja a mínima preocupação em conhecer os seus
modus operandi ou a mínima intenção de os enfrentar e compreender
realmente. A cena nunca se tentou organizar para resistir a ataques
fascistas para além de episódicamente (nem no passado nem agora, em
que sim se torna cada vez mais numa ameaça o renascimento de uma
série de organizações fascistas). Nunca procurou sequer informar-se
seriamente acerca da policia - não conseguindo distinguir entre PJ e
PSP, não sabendo nada acerca de como opera a repressão em Portugal
- não percebendo que, infelizmente e apesar de todas as pretensões,
na sua grande maioria as acções quotidianas da cena preocupariam
mais a associação de pais e a professora da catequese do que qualquer
responsável pela segurança do estado.
Perante um imaginário riquíssimo em emoções, histórias e
valores estéticos de um charme aventuroso inegável, ironicamente
contrastado com um quotidiano de rotina pálida e de medíocre
representação, é apenas natural, para não dizer inteligente, que muitos
se desiludam abandonando a cena e os projectos que lhe dão corpo,
dedicando-se ao hedonismo, à edificação de uma carreira, à tentativa
de construção de um pequeno negócio usando as habilidades que
entretanto aprenderam, à organização de mundinhos escapistas. A raiva
que nunca conseguimos que deixasse de ser uma fonte de frustração
para se tornar num elemento de construção de contrapoder acabou por
alimentar esquemas sub-capitalistas (na mesma maneira em que a cena
é uma sub-cultura e não uma contra-cultura) que, eventualmente até de
maneira mais feliz, vão funcionando sujeitos à mediocridade geral dos
quotidianos.
No essencial o que queremos afirmar é que ao contrário do que
acredita a cena não é nem um espaço fora do sistema nem um contrapoder
em construção mas uma sofisticação sem saída de alg umas das várias
tendências da miséria actual. O que a torna sem saída – enclausurada
por si própria sem pontos de fuga – é que após o seu maniqueísmo
eventualmente ultrapassado o pessoal da cena se vê obrigado a escolher
entres tons de cinzento, esquecendo que há milhares de cores para além
do preto e do branco e dos compromissos entre eles. Decidimos então
editar estes textos. O primeiro fala de uma cena culturalmente próxima
da que aqui vivemos, uma não muito grande cidade a braços com os
becos sem saída das suas realidades antagonistas. O seg undo, mais geral,
aborda a questão das misérias dos ambientes subversivos: parte de uma
proximidade com uma realidade riquíssima em projectos antagónicos
tanto no presente como no passado (havendo algumas referências que nos
serão alheias) para chegar a uma cirúrgica e catártica denúncia de processos
que todos, solitariamente, julgávamos secretos. Não é como apelo a mais e
melhor cena, não como exigência de mais militância, nem como proposta
de novas tábuas de salvação que decidimos editar estes textos, mas para
contribuir a uma dissolução do presente impasse. As cenas estrangeiras
que a cena almeja ser, e que por vezes acredita ser, serão no máximo mais
variadas na sua oferta, não deixando por isso de ser também lugares de
conformismo, de homogeneização e de hierarquias pós-autoritárias. Não
pretendemos nem sequer uma reforma na cena, não alinhamos o nosso
discurso com outra criticas que a cena faz a ela própria quando discute
assuntos como o seu sexismo interno, a sua falta de entusiasmo ou de
integridade: esperamos conseg uir nomear o elefante na sala acerca do
qual ning uém fala, esperamos que ambos os textos e as suas introduções
caiam mal como um acto de pedofilia denunciado na consoada e que a
partir daqui possamos de maneira efectiva por em discussão os presentes
que nos esmagam. Superando-os e destruindo-os: não através de regras
fantasma e práticas rituais mas num fluxo de vontades de libertação que
se alimentam, sobrepõe e redefinem consoante os progressos no terreno,
utilizando meios específi cos para fi ns específicos, pensando que o
esvaziamento das nossas acções ocorre quando os seus aspectos formais
e estruturais, e não os superficiais, não conseguem deixar de ser pálidas
repetições camufladas das características das realidades que combatemos.
Fomentando uma multiplicidade de dinâmicas subversivas que não se
vigiem mutuamente nem se ancorem em estátuas mas que consigam
ultrapassar o real por lá encontrarem pontos de apoio e linhas de fuga, a
Cena terá uma hipótese de fazer desabar as suas paredes mestras e não só
estas, ganhando o direito de perder o seu nome.

