1/21/2006

baudrillard admite: "sim sou um catastrofista"

"Assim como a sociedade, ao normalizar-se, faz surgir na sua periferia os loucos e os anormais, assim também a razão e o domínio técnico da natureza, quando se aprofundaram, fizeram surgir à sua volta a catástrofe e o fracasso como irrazão do "corpo orgânico da natureza" - irrazão insuportável, porque a razão se quer soberana e já nem sequer pode pensar o que lhe escapa; insolúvel, pois já não há rituais de propiciação ou de reconciliação: o acidente, como a morte, é absurdo, um ponto e é tudo. É sabotagem. Um demónio maligno lá está para fazer que esta formidável máquina se avarie sempre. Assim, esta cultura recionalista foi atingida, como nenhuma outra, de paranóia colectiva. O menor acidente, a menor irregularidade, a menor catástrofe, um tremor de terra, uma casa que se desmorona, o mau tempo - há que encontrar um responsável - tudo é atentado. Assim, a recrudescência da sabotagem, do terrorismo, da criminalidade é menos interessante do que o facto de que tudo o que acontece se interprete neste sentido. Acidente ou não? É indecidível. E não tem importância, pois a categoria do Acidente, que Octávio Paz analisa, pendeu para o lado do Atentado. E isto é normal num sistema racional: o acaso só se pode deixar a uma vontade humana, portanto, todo o contratempo se interpreta como malefício - ou politicamente como atentado contra a ordem social. E é verdade: uma catástrofe natural é um perigo para a ordem estabelecida, não apenas pela desordem que provoca, mas pelo choque que inflige a toda a "racionalidade" soberana, e também política. Daí o estado de sítio para um tremor de terra (Nicarágua), daí os serviços de ordem nos locais das catástrofes (mais importante que uma manifestação, como na altura do DC-10 em Ermenonville). Pois, ninguém sabe até onde a "pulsão de morte", iniciada pelo acidente ou pela catástrofe, se pode desencadear na altura e voltar-se contra a ordem política." in A troca simbólica e a Morte

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