4/05/2006

O Fórum das Ed. An. (Sem Manuel Acácio)

Comentário ao post de ai em baixo: "carochinha said... ok ok mas no fundo disso tudo, autofagica e tragicamente bela ansia de destruicao pela catarse, seja de de lisboa e vale do tejo ou do caneco longe como tudo mas com ares adoptaveis ao papel de booggie man, entao diz-me là o que farias sem a tua ligacao à net, sem os teus tenis esfolados a uma puta indonesia que faz biscates para a adidas ou na noite em que fosse preciso voltar à horta porque os legumes a comer tinham de voltar a vir do teu suor. Em suma, é adoravel ver alguem a manter a chama da atitude catartica- alguem tem de faze-lo - apenas duvido-porque-duvido-mesmo da articulacao disso com uma humildade mais enraizada que fique com tudo o que existe, atenta e presente, sem alucinadas ambicoes de exterminio daquilo daqilo q é o Mal,que nao disfarce a perpetuacao que faz de um dualismo sofredor com uma verborreia muito sedutora mas apenas esclarecida porque tem as costas quentes. Respeitosamente, carochinha" A carochinha (de pequeno insecto ou de pequena toxicodependente?) volta a por a questão do que poderão ser os comportamentos quotidianos verdadeiramentes susceptiveis de mudar alguma coisa. Parece um debate interessante e estamos mais do que dispostos a providenciar o fórum para tal debate. Normalmente as opiniões relativas a este assunto dividem-se em alguns grupos que consideraremos ai em baixo. Fica a advertência, necessária perante as sensibilidades acutas da maioria dos envolvidos, que são apenas generalizações com o seu quê de ironia. Para um número considerável de pessoas o quociente revolucionário do quotidiano mede-se pela capacidade de recusar os métodos de sobrevivência disponibilizados pelo poder abandonando ou construindo alternativas a estes: desenvolvendo esquemas alternativos de aquisição e troca de bens (trocando, "reciclando", roubando), recusando confortos e necessidades "burguesas" como modinhas, cultura pop, restauração, etc, procurando construir espaços de convivio separados onde as regras sejam diferentes e não sujeitas aos espaços normais de consumo. Este tipo de tentativa de subversão surge habitualmente ligada a temáticas como o vegetarianismo, a preocupação perante o uso de quimicos em produtos quotidianos, o poder das multinacionais. A principal critica feita a tudo isto é que muito facilmente se cria uma passividade escapista sujeita aos restos do sistema e que perante a ineficácia de certos métodos acontece eventualmente uma mitificação da miséria e do despojo, uma onda um bocado franciscana até no isolamento, o ghetto que se cria acaba por ser tão miserável como a sociedade a que quer escapar. é por aqui que a pequena carocha nos acusa de usar ténis esfolados a uma puta biscateira indonésia, estou ao corrente das crueis e desumanas condições de trabalho na indonésia mas nunca imaginei que recorressem a perversidades tão abjectas, e de não sermos capazes de trabalhar à noite na horta, capacidade pouco conhecida do campesinato honesto em pleno e fraterno contacto com a natureza. Uma outra vertente assume que a revolução passou a ser uma questão pessoal, passando agora por campos semi-espirituais de emancipaçção pessoal. o quotidiano revolucionário passa por uma edificação pessoal que permita que cada um se subtraia às armadilhas psicológicas da biopolitica. A emancipação passa por um maior contacto consigo próprio, uma maior honestidade nas relações sociais, por uma abnegação edificante que permita a verdadeira comunhão entre os seres através de um crescimento conjunto. Na sequênca deste estado de omnipresente saúde mental o capitalismo não será nem ultrapassado nem combatido mas abandonado. A revolução acontece passo a passo e não se combate nas barricadas mas nas cabeças de cada um de nós. Esta será, passe o que porventura terá de detalhes interessantes, a mais reaccionária das posturas: não só anula e esquece todo o papel que o poder sempre teve ao reprimir incontáveis tentativas de insurreição como assume que todos devemos ajudar os outros a atingir uma iluminação que já possuimos à priori. Não sobejem dúvidas que este pessoal nos cai um bocado mal, a revolução não é um piquenique. Os terceiro serão os militantes: a mudança constroi-se criando e organizando movimento, nem sempre consequentemente, mas sempre com muita força. O dever do agente de mudança é criar e organizar uma força de carácter politico que possa eventualmente ganhar um conflito com os poderes instituidos. É através de acção politica que se chega a algum lado, os mais meninos organizam concentrações, os mais hardcores lançam molotovs. É pela dedicação à causa que se medem as pessoas: como diziam os Bologneses CRASH "La militanza non vá de vacanza" (Bologna é uma cidade essencialmente universitária que literalmente se esvazia no verão, os caros autónomos propunham que ficasse toda a gente na cidade a construir contrapoder) ou algumas paredes em Barcelona: "Solidariadade é passares pelo que eu passo" e "Solidariadade diferente de blah blah blah, solidariedade igual a bomba". Para além dos óbvios traços de fundamentalismo, dogmatismo e em geral péssimas qualidades tácticas suportadas por um discurso em que só acredita ou leva a sério que o escreveu, a militância apaga o individuo em nome de um conceito abstracto, ou seja, é alienação pura. Deixamos escapar com uma mera referência o pessoal que acredita que é através do envolvimento civico que os amanhãs melodiosos surgirão. Há várias nuances, uns são mais sofisticados, outros menos iluminados, mas não vamos perder tempo a discutir gente que se enternece com as barbas paternais do Manuel Alegre ou com o ar de seminarista porreiro do Louçã. Basicamente este pessoal está para todos nós como as Selecções do Reader's Digest estão para as Edições Antipáticas. E Por último, e por isto não esperavam, queremos denunciar os piores de todos: a escumalha pro-situ, artistóide, intelectualóide, pequeno burguesa, pseudo-vanguardista, hedonista, nihilista, grandiloquente, dandy de pacotilha, filhinha do papá, filhinha da inteligentsia e da aristocracia de esquerda que abundam nestes meios antipáticos. Para estes inomináveis filhos da puta a revolução é uma festa. gostam muito de festas porque se habituaram desde pequenos a receber grandes prendas em festas, playstations, motas, viagens aos estados unidos, etc... Como tem dinheiro para gastar nos bares caros das cidades onde vivem esbanjam tudo em lugares burguesóides como o bairro alto e como no fim da noite mandam um caixote do lixo ao chão e tem uma nódoa de smirnoff na t-shirt dos panteras negras acham que são os legitimos herdeiros dos Weathermen Underground que conhecem do DVD que compraram na Amazon.com. Há várias facções: uns dedicam-se às artes e acham-se legitimos herdeiros das vanguardas do século 20, outros vieram das casas okupadas e fazem render o seu curriculum nas festas do bloco de esquerda onde impressionam jovens do sexo oposto com historinhas do black bloc, outros são simplesmente triste pós-situs, outros ainda vêm da cena punk/hardcore e perceberam todos aos mesmo tempo que agora estava mais na moda esta onda e decoraram em duas semanas esse situacionismo fast-food da Crimethinc. Todos eles afirmam que a arte se deve realizar na vida sobre o signo do jogo, e que ás vezes são revolucionários outras vezes capitalistas. Falta-lhe a lucidez, e quiçá como dizia a little junkye a humildade, para perceberem que no fim de contas não são uma coisa nem outra, falhando redondamente nas duas. Os comentários e as prestações mais interessantes serão todas aqui publicadas e discutidas.

7 Comments:

Anonymous ALCIDES LOVES SIEGE said...

Todos a enganar a fome na bolinha azul. Uns com lentilhas com sal a menos e outros com espetadas de tofu biológicas de 8 euros no celeiro. Os meios são igualmente válidos e facilmente criticáveis. Os fins similares. Se o objectivo comum é manter a digestão a ruminar encontramo-nos ás 19h30 para saltar para o meio dos cactos e dar um mergulho nocturno na piscina dos J.O. na montanha. Serve pela bela imagem? Não tem que ser excitante o suficiente porque não é. O desejo da mudança pela revolução existe só pela impaciência e o desespero com os montes de nadas merdosos acumulados de que são construidas as Horas. Queremos Tragédia, procuramos Drama e ansiamos por Horror. No fim, isto é só facilmente chato.

12:42 PM  
Anonymous Miguel Caetano said...

Pessoal:

Ando a ler um livro que se insere que num uma luva no vosso pensamento apocalíptico, masoquista, catastrofista. Até fala em fetichismo da mercadoria e tudo... Chama-se "As Aventuras da Mercadoria" (2006, Antígona) e foi escrito por Anselm Jappe, autor de uma biografia do vosso querido cripto-marxista Debord.

Para não estar a spammar isto, meto aqui o link para o comentário que fiz n'O Bitoque:

http://obitoque.blogspot.com/2006/04/quem-so-os-ditadores.html

12:56 PM  
Anonymous alcides born to siege said...

"... dead animals for tears" (09/2000, palavras inesqueciveis, sabedoria de puto gordo americano sentado ao meu lado durante a caimbra gigante da viagem de 14 horas)

2:00 PM  
Anonymous carochinha said...

caro estratega belico

confesso que até a mim a tua catalogacao dos revoltos assistematicos foi util.Apenas como referencia,claro està, ou nao fosse como todas as analises,que por mais exaustivas que sejam sao apenas uma baliza para pensar.
Acho que esse exercicio a q te dedicaste é sobretudo enquinado, e isto em relacao àquilo que nele mais me toca, porque aparentas faze-lo numa furia catalogante do genero de-onde-é-que-me-saiu-este cromo-vamos-là-esmifrar-a-ver-se-o-consigo-engavetar-e-jà-agora-ponho-as-ideias-em-ordem-em-relacao-a-quem-anda-por-aqui. Nesse drive,fazes sobretudo literatura com pontos de apoio no real e neste q te escreveu. Sim, o humor q usas liberta-te de considerares profundamente o q te chega, ao mesmo tempo q te dà ares de flutuar como uma pena sobre o assunto que abordas, como se nunca tivesses duvidas e raramente te enganasses. Por debaixo das tuas palavras circula uma presuncao de superioridadeque que precisamente porque nao é assumida aflora em sitios esquisitos do discurso. A tua literatura é , diga-se agradavel, embora um tanto exaustuva demais para mim. Tenho pena que nao fales mais claro. Nao estou a dizer que tb eu consiga sempre ser claro (alias a tua jocosa interpretacao da historia das hortas à noite é exemplo disso), estou adizer é q sinto no teu escrever um gosto proprio do percurso do descobrir as palavras que, no modo como o fazes, é muito mais proprio da literatura do que de alguem que à sua escala,por mais humilde que seja, deveras tente entrar em acordo consigo ou com o proximo e fazer uma revolucao real.

A atitude dita "revolucionaria" parece sempre salivar perante a hipotese de um debate, uma disputa, um terreno para a sua vitoria. Nao vou alimentar esse terreno, nao tenho intencao de estar mais correcto que tu. Sim, gosto mais de piqueniques do que de degladeios intelectuais que geralmente(e digo-o pq o observo em mim mm)sao genuinas trocas de prespectivas mas sobretudo em funcao de Egos. Da presenca historica dos Egos e a sua capacidade de gerar sofrimento estaràs, parece-me, mais informado do que eu (a loucura de hitler, as comunidades pos-maio de 68 q se diluem por causa tb de lideres inconscientemente despotas, etc)
Ha uma vontade desratizante no teu texto ("esses inominaveis filhos da puta" e outras expressoes afins)que, se a revolucao é o aproximarmo-nos colectivamente de um interagir humano q gere vitalidade autentica em cada um e em todos em geral e se o que adia ad-eternum a revolucao é a incompreensao de que aversao e apego extremados geram sofrimento incessante, serà essa vontade desratizante que ,dizia, e partindo destes meus actuais pressupostos privados, anula irremediavelmente uma possivel e radical revolucao. é demasiado higienica, quase puritana.Acho q nenhum de nos se identifica com as linhas de orientacao que saem do grupo que é quiçà o mais influente do planeta, os puritanos norte-americanos. à nossa escala podemos permitir-nos dizer patachadas inconsequentes, mas se alimentas isso num certo cenario mais visivel juntas-te à imensa lista dos que perpetuam as guerras e outros sofrimentos quetais.

é giro escrever. Jà to disse,escreves bem, estàs bem informado. Nao quero soar paternalista mas custa-me a acreditar que desse muitas vezes quixotesco tiroteio para o ar saia uma real revolucao humana. A realidade dessa revolucao pode ser à escala de uma sala, de ti mesmo ou do planeta inteiro, nao interessa. Falo daquela revolucao que me interessa: a obvia,a que segue as aspiracoes fundas e silenciosas de cada um. Lamento mas alguns New Age fazem sentido.Tambem lamento que tu tenhas razao na tua desconfianca em relacao aos movimentos espiritualoides, comunoides e outras colectividades afins, a dado momento todas geradoras de cegueira. Ai reside a questao, tambem n m identifico com ismos, nem com anti- isto ou aquilo, tento ser e isso ja me da um trabalho do caneco. Tambem gostava q fosse facil, tb gostava de ter razao e ter muitas certezas. Tento perceber a aspiracao primeira q dà origem a cada uma das ramificacoes da arvores dos contra-sistema q tao literariamente desenhaste, e so encontro aspiracoes legitimas. Continuo a achar q é nessas aspiracoes q nos devemos focar,e q é o modo de as articularmos em conjunto q devemos trabalhar, nao julgar, como me parece que fazes em tique contraproducente.

Nao, nao gosto de arrivistas esquerdinhos, nem de artistinhas hype, nem de testemunhas de Ecolojà, nem dessas trampa toda... a questao é q isso sao lugares mentais e nao pessoas, eles existem tb em mim,e se tento como tu destrui-los ou nao lhes reconhecer interesse, acabo por lancar-me a mim mesmo num caos que é contrario aquilo q pretendo como individuo e parte da humanidade.Esse caos é visivel no teu texto, na tua "luta". identificar atitudes mentais com pessoas cria emblocagens mentais do genero eu-tou-certo-e-tu-errado que perpetuam o problema, por mais que a sua intencao mais funda nao seja perpetua-lo. é ai a genese da guerra, na tua cabeca ou na rua, sem distincao.

ou entao eu estou equivocado e o que deveras te move é uma burguesa diletancia em torno destas questoes muito engracadinhas. Parece-me q nao.


carochinha(a das historias às criancinhas)

2:20 AM  
Anonymous mere said...

Oh chefe, tu põe-te a pau, se não qualquer dia não te aguentas e... matas-te comós outros. Vê lá essa cena !

3:17 AM  
Anonymous mere said...

carochinha: tens foto ?

3:19 AM  
Anonymous Bzuca said...

Eu diria que a carochinha te está a dar luta...

2:58 PM  

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