Comentário ao post de ai em baixo:
"carochinha said...
ok ok
mas no fundo disso tudo, autofagica e tragicamente bela ansia de destruicao pela catarse, seja de de lisboa e vale do tejo ou do caneco longe como tudo mas com ares adoptaveis ao papel de booggie man, entao diz-me là o que farias sem a tua ligacao à net, sem os teus tenis esfolados a uma puta indonesia que faz biscates para a adidas ou na noite em que fosse preciso voltar à horta porque os legumes a comer tinham de voltar a vir do teu suor.
Em suma, é adoravel ver alguem a manter a chama da atitude catartica- alguem tem de faze-lo - apenas duvido-porque-duvido-mesmo da articulacao disso com uma humildade mais enraizada que fique com tudo o que existe, atenta e presente, sem alucinadas ambicoes de exterminio daquilo daqilo q é o Mal,que nao disfarce a perpetuacao que faz de um dualismo sofredor com uma verborreia muito sedutora mas apenas esclarecida porque tem as costas quentes.
Respeitosamente, carochinha"
A carochinha (de pequeno insecto ou de pequena toxicodependente?) volta a por a questão do que poderão ser os comportamentos quotidianos verdadeiramentes susceptiveis de mudar alguma coisa. Parece um debate interessante e estamos mais do que dispostos a providenciar o fórum para tal debate.
Normalmente as opiniões relativas a este assunto dividem-se em alguns grupos que consideraremos ai em baixo. Fica a advertência, necessária perante as sensibilidades acutas da maioria dos envolvidos, que são apenas generalizações com o seu quê de ironia.
Para um número considerável de pessoas o quociente revolucionário do quotidiano mede-se pela capacidade de recusar os métodos de sobrevivência disponibilizados pelo poder abandonando ou construindo alternativas a estes: desenvolvendo esquemas alternativos de aquisição e troca de bens (trocando, "reciclando", roubando), recusando confortos e necessidades "burguesas" como modinhas, cultura pop, restauração, etc, procurando construir espaços de convivio separados onde as regras sejam diferentes e não sujeitas aos espaços normais de consumo. Este tipo de tentativa de subversão surge habitualmente ligada a temáticas como o vegetarianismo, a preocupação perante o uso de quimicos em produtos quotidianos, o poder das multinacionais. A principal critica feita a tudo isto é que muito facilmente se cria uma passividade escapista sujeita aos restos do sistema e que perante a ineficácia de certos métodos acontece eventualmente uma mitificação da miséria e do despojo, uma onda um bocado franciscana até no isolamento, o ghetto que se cria acaba por ser tão miserável como a sociedade a que quer escapar. é por aqui que a pequena carocha nos acusa de usar ténis esfolados a uma puta biscateira indonésia, estou ao corrente das crueis e desumanas condições de trabalho na indonésia mas nunca imaginei que recorressem a perversidades tão abjectas, e de não sermos capazes de trabalhar à noite na horta, capacidade pouco conhecida do campesinato honesto em pleno e fraterno contacto com a natureza.
Uma outra vertente assume que a revolução passou a ser uma questão pessoal, passando agora por campos semi-espirituais de emancipaçção pessoal. o quotidiano revolucionário passa por uma edificação pessoal que permita que cada um se subtraia às armadilhas psicológicas da biopolitica. A emancipação passa por um maior contacto consigo próprio, uma maior honestidade nas relações sociais, por uma abnegação edificante que permita a verdadeira comunhão entre os seres através de um crescimento conjunto. Na sequênca deste estado de omnipresente saúde mental o capitalismo não será nem ultrapassado nem combatido mas abandonado. A revolução acontece passo a passo e não se combate nas barricadas mas nas cabeças de cada um de nós. Esta será, passe o que porventura terá de detalhes interessantes, a mais reaccionária das posturas: não só anula e esquece todo o papel que o poder sempre teve ao reprimir incontáveis tentativas de insurreição como assume que todos devemos ajudar os outros a atingir uma iluminação que já possuimos à priori. Não sobejem dúvidas que este pessoal nos cai um bocado mal, a revolução não é um piquenique.
Os terceiro serão os militantes: a mudança constroi-se criando e organizando movimento, nem sempre consequentemente, mas sempre com muita força. O dever do agente de mudança é criar e organizar uma força de carácter politico que possa eventualmente ganhar um conflito com os poderes instituidos. É através de acção politica que se chega a algum lado, os mais meninos organizam concentrações, os mais hardcores lançam molotovs. É pela dedicação à causa que se medem as pessoas: como diziam os Bologneses CRASH "La militanza non vá de vacanza" (Bologna é uma cidade essencialmente universitária que literalmente se esvazia no verão, os caros autónomos propunham que ficasse toda a gente na cidade a construir contrapoder) ou algumas paredes em Barcelona: "Solidariadade é passares pelo que eu passo" e "Solidariadade diferente de blah blah blah, solidariedade igual a bomba". Para além dos óbvios traços de fundamentalismo, dogmatismo e em geral péssimas qualidades tácticas suportadas por um discurso em que só acredita ou leva a sério que o escreveu, a militância apaga o individuo em nome de um conceito abstracto, ou seja, é alienação pura.
Deixamos escapar com uma mera referência o pessoal que acredita que é através do envolvimento civico que os amanhãs melodiosos surgirão. Há várias nuances, uns são mais sofisticados, outros menos iluminados, mas não vamos perder tempo a discutir gente que se enternece com as barbas paternais do Manuel Alegre ou com o ar de seminarista porreiro do Louçã. Basicamente este pessoal está para todos nós como as Selecções do Reader's Digest estão para as Edições Antipáticas.
E Por último, e por isto não esperavam, queremos denunciar os piores de todos: a escumalha pro-situ, artistóide, intelectualóide, pequeno burguesa, pseudo-vanguardista, hedonista, nihilista, grandiloquente, dandy de pacotilha, filhinha do papá, filhinha da inteligentsia e da aristocracia de esquerda que abundam nestes meios antipáticos.
Para estes inomináveis filhos da puta a revolução é uma festa. gostam muito de festas porque se habituaram desde pequenos a receber grandes prendas em festas, playstations, motas, viagens aos estados unidos, etc... Como tem dinheiro para gastar nos bares caros das cidades onde vivem esbanjam tudo em lugares burguesóides como o bairro alto e como no fim da noite mandam um caixote do lixo ao chão e tem uma nódoa de smirnoff na t-shirt dos panteras negras acham que são os legitimos herdeiros dos Weathermen Underground que conhecem do DVD que compraram na Amazon.com. Há várias facções: uns dedicam-se às artes e acham-se legitimos herdeiros das vanguardas do século 20, outros vieram das casas okupadas e fazem render o seu curriculum nas festas do bloco de esquerda onde impressionam jovens do sexo oposto com historinhas do black bloc, outros são simplesmente triste pós-situs, outros ainda vêm da cena punk/hardcore e perceberam todos aos mesmo tempo que agora estava mais na moda esta onda e decoraram em duas semanas esse situacionismo fast-food da Crimethinc. Todos eles afirmam que a arte se deve realizar na vida sobre o signo do jogo, e que ás vezes são revolucionários outras vezes capitalistas. Falta-lhe a lucidez, e quiçá como dizia a little junkye a humildade, para perceberem que no fim de contas não são uma coisa nem outra, falhando redondamente nas duas.
Os comentários e as prestações mais interessantes serão todas aqui publicadas e discutidas.